
«É possível fazer indústria de excelência a partir de Portugal, com impacto global». A afirmação é de Isabel Furtado, diretora executiva da TMG Automotive, em entrevista concedida ao Jornal-T, depois de ter recebido o título de Doutora Honoris Causa pelo ISCTE.
Nas suas declarações, referiu que a distinção representa o reconhecimento de um percurso dedicado a uma indústria «moderna, tecnológica, inovadora e internacional».
Isabel Furtado valoriza mais o doutoramento por vir do ISCTE, «uma instituição com forte ligação à gestão, à economia e às organizações». Por isso, «este doutoramento valoriza a indústria como espaço legítimo de pensamento estratégico, inovação e impacto. É o reconhecimento de um sector que soube transformar-se, investir em conhecimento e competir pela diferenciação, pelo valor, e não pelo custo. Portugal distingue-se por ter um verdadeiro cluster têxtil concentrado numa área relativamente pequena, sendo atualmente único na Europa», afirma.
Com 41 anos dedicados à indústria, a neta de Manuel Gonçalves (fundador da TMG), revela ter aprendido com universidades, indústria, pessoas, mercado, erros e, acima de tudo, com a exigência de tomar decisões em ambientes complexos e em constante mudança.
Nestes contextos complexos, em que a mudança é a única constante do processo, a empresária diz que a visão de longo prazo assenta em quatro palavras-chave: estratégia, disciplina, audácia e muita resiliência. «Na ITV e na TMG, o longo prazo é assegurado através de investimento contínuo em inovação, talento e capacidade industrial, mesmo em contextos adversos. É essa coerência estratégica que permite resistir à volatilidade sem comprometer o futuro», explica.

Na entrevista, Isabel Furtado falou ainda da liderança de uma empresa familiar: «nenhuma empresa sobrevive por inércia. As empresas familiares enfrentam o desafio de perpetuar um legado, respeitando a história sem se tornarem prisioneiras dela». Revelou que a estratégia deve passar pela evolução, transformação e adaptação.
Deu a TMG Automotive como exemplo, porque detém mais de 110 patentes registadas e está entre as cinco empresas nacionais com maior número de pedidos de patente, com mais de 140 solicitações. «Produzimos materiais avançados e soluções funcionais e sustentáveis com propriedade intelectual própria. Isso muda o posicionamento do sector nas cadeias de valor globais. Hoje, inovação e capacidade produtiva são indissociáveis», sublinha.
Sobre o fato de ser uma mulher a liderar uma empresa, refere apenas que é normal. «O nosso sector é exemplar pela presença crescente de mulheres em cargos de direção. Na TMG, 50% dos colaboradores com educação superior são mulheres, e nos doutorados elas são a maioria. A diversidade de género é um fator de competitividade: equipas diversas tomam melhores decisões, inovam mais e compreendem melhor mercados globais e clientes diversos», realça.
Acerca do futuro, defende que a ligação academia-indústria deve ser «mais estrutural, contínua e orientada para problemas reais, com projetos conjuntos de médio e longo prazo, mobilidade de talento e valorização do conhecimento aplicado».






