Famalicão: Paulo Cunha defende aposta na indústria, na investigação e na autonomia energética

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Paulo Cunha é o líder da bancada do PSD no Parlamento Europeu e Sebastião Bugalho o porta-voz. Há poucas semanas no Parlamento Europeu, onde vai integrar quatro comissões, realça que aqui se discutem temas «centrais para a humanidade». Em entrevista ao Cidade Hoje, fala de assuntos que envolvem mais Portugal, como a execução do PRR. Diz que o grau de execução é preocupantemente baixo e critica o Governo anterior por não ter feito as reformas estruturais pedidas. O famalicense destaca que o grande desafio da União Europeia é impulsionar a indústria, a investigação e a autonomia energética, sem descurar a luta pela paz e pelos valores europeus no “velho continente”. Não deixou de lado a questão dos imigrantes, esperando que cada país os «saiba acolher com dignidade».

CIDADE HOJE (CH) – Lidera a bancada social-democrata no PE. De que forma vai desenvolver a sua ação?

Paulo Cunha (PC) – Como sempre fiz, através do trabalho de equipa. Esta é uma função de primus inter pares, essencialmente de coordenação que funcionará com uma comissão executiva de 3 elementos. Além de mim, como chefe de delegação, teremos um porta-voz, que será o deputado Sebastião Bugalho, e um tesoureiro, desempenhado pelo deputado Hélder Sousa e Silva. Mas todos os deputados serão envolvidos.

CH – É um estreante, quais as primeiras impressões neste novo desafio?

PC – Sente-se, a cada passo que damos, a verdadeira escala europeia, e até global, do Parlamento Europeu. Os temas que aí se discutem são centrais para a humanidade. A enorme diversidade de línguas e de culturas nas reuniões e nos corredores do Parlamento Europeu é talvez a melhor imagem desta centralidade e abertura. Pressinto que, ao mesmo tempo que estamos a tratar temas relevantes para o nosso futuro e à escala planetária, também é possível, e eu desejo, dar contributos para o nosso presente e à medida de cada um dos territórios locais.

CH – Reconheceu, em campanha, a complexidade e morosidade dos fundos comunitários. O que pode ser feito para tornar os processos mais simples?

PC – O regime legal de contratação pública, em grande parte determinado por diretivas europeias, é extremamente lento e burocrático. Entre a decisão de executar uma obra e a data de início dos trabalhos decorrem, por vezes, vários anos. Espero ajudar a estabelecer um laço de confiança entre entidades que atribuem fundos e aquelas que deles beneficiam, reforçando a capacidade fiscalizadora e punindo severamente os prevaricadores.

 

O anterior Governo foi extremamente lento na definição dos procedimentos e em colocar o fundo ao serviço do país. Espero que o enorme esforço implementado pelo atual Governo consiga recuperar o atraso na execução do PRR

CH – Portugal tem aplicado bem os fundos, designadamente o PRR?

PC – O grau de execução do PRR, no conjunto dos países europeus, é preocupantemente baixo. Em anos anteriores não se utilizaram os fundos para se fazerem as necessárias reformas estruturais e o anterior Governo foi extremamente lento na definição dos procedimentos e em colocar o fundo ao serviço do país. Espero que o enorme esforço implementado pelo atual Governo consiga recuperar o atraso na execução do PRR.

CH – Fala-se já numa reestruturação do PRR. Será a forma de “salvar” alguns dos projetos?

PC – O avanço para investimentos devidamente ponderados e maduros exigia mais tempo para a sua plena implementação. Se vier a revelar-se impossível a prorrogação do prazo de 2026, exige-se, pelo menos, uma flexibilização na forma de abordar o grau de cumprimento das metas. Se uma obra estiver em curso no final de 2026 e executada a 95%, não será compreensível que não seja financiada. Independente de qualquer possível alteração futura, Portugal tem de jogar pelo seguro e tudo tentar fazer para cumprir as metas até 2026.

CH – Como envolver mais os jovens na União Europeia e assegurar o “movimento de ida e volta”, como defendeu?

PC – Os jovens sentem-se europeus porque já nasceram na UE, mas concordo que é necessário fazer mais. Este Governo está a trabalhar no sentido certo para criar as condições que permitam reter os jovens em Portugal. É importante também assegurar que os que estão fora possam regressar e sintam os atrativos que faltaram quando optaram por sair do país. O problema atualmente é que a chamada “fuga de cérebros” e a vaga da nova emigração foi, nos últimos anos e por falta de condições, uma inevitabilidade para muitos jovens.

CH – Vai trabalhar em quatro comissões, mas assume particular interesse pela Comissão da Indústria, Investigação e Energia. Porquê?

PC – Para que a UE seja um ator competitivo e à escala global tem que investir na indústria, na investigação e na autonomia energética. É um ponto chave, a par de muitos outros, na nossa afirmação enquanto país e continente. Não escondo que tendo sido autarca de Vila Nova de Famalicão, cidade têxtil de Portugal e com enorme projeção industrial em múltiplos outros setores, como as carnes, a metalomecânica e o setor automóvel, contribuiu para essa escolha.

CH – Como deve a UE potenciar a afirmação local e privilegiar a mais-valia que representa a imensa diversidade do espaço europeu?

PC – Concordo que a política de proximidade é outra grande chave do sucesso do projeto europeu. Outro aspeto, ligado a esse, é defender o parlamentarismo; é uma forma de combater o populismo. Por isso, acredito sinceramente que devemos criar uma rede que ligue os eleitos locais, nacionais e europeus para aumentar sinergias e ligar o local ao europeu.

A UE continua a ser o melhor espaço para se viver. O modo de vida europeu tem que ser preservado e defendido. É isso que estamos a fazer quando nos colocamos ao lado da Ucrânia na defesa dos valores ocidentais e contra os regimes autoritários.

CH – Quais os grandes desafios que a União Europeia enfrenta nos próximos anos?

PC – A grande prioridade da União Europeia deve continuar a ser a Paz. No nosso Programa definimos 5 eixos de ação: a Europa que protege, que cresce, que cuida, que sente e, por fim, uma Europa viva. Vamos cumprir o nosso programa

A UE continua a ser o melhor espaço para se viver. O modo de vida europeu tem que ser preservado e defendido. É isso que estamos a fazer quando nos colocamos ao lado da Ucrânia na defesa dos valores ocidentais e contra os regimes autoritários.

CH – Como pode a UE melhorar/acolher o fluxo migratório?

PC – Penso que a política migratória não pode estar desligada da política demográfica. Tem que haver, à escala da UE, uma política demográfica comum porque a crise demográfica é comum e é gravíssima. De uma forma simples, quanto às migrações, defendemos uma imigração ponderada, com conta, peso e medida, que permita acolher bem. É uma questão de respeito pelas pessoas: recebe-las com condições para as acolher com dignidade. E os Estados devem avaliar as condições que têm para a garantir. É esse equilíbrio que tem que ser encontrado.

CH – Nesta legislatura será mais difícil formar maiorias dentro do PE, porque mais dispersa a representação parlamentar, como seja, por exemplo, pela criação de um grupo de partidos de extrema direita?

PC – As eleições europeias demonstraram que o espaço político do centro moderado é o preferido dos europeus. As eleições de Roberta Metsola e Ursula von der Leyen falam por si.

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